Estou com 30 anos e não me lembro de um tempo que se falou tanto em crise. Confesso que tenho dificuldade para entender quais as causas e, também, quais as verdades nesses discursos. Não dá para aceitar tudo que nos falam a favor desses ou contra aqueles. Essa capacidade é urgente. Olhar para aquilo que não está visível. Ouvir o silêncio dos que não tem espaço para dizer nada.
E, nesse clima, se aproxima o Natal. Gosto de dizer que o Natal sempre é uma contradição. Ao invés de nos curvarmos aos poderosos engravatados, vomitando mentiras nos microfones, nos inclinamos frente a um Menino. Quando me aproximo de uma criança, gosto que ela aperte o meu dedo. É incrível como, desde pequenas, elas têm força de apertar nosso dedo com aquelas mãozinhas quase invisíveis. O aperto no dedo é um carinho silencioso na alma. Eu queria que Jesus tivesse apertado meu dedo.
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Sinto que, tantas vezes, o que nos falta é alguém que aperte nosso dedo. Não quero ser demagógico, mas preocupamo-nos demais com o churrasco e a cerveja, com o amigo secreto, com viagens, com panetone, com roupas, com festas, e estamos precisando de alguém que apenas nos aperte o dedo. Ou, acaricie a alma. Estamos todos carentes: de sonhos, de horizontes, de projetos, de afetos, de doçuras, de referências, de esperanças... O Menino vem para nos chacoalhar com seu choro fácil e frágil, abanando-nos com a mãozinha aberta.
O Natal é um convite a curvar-se frente ao Menino. Inclinar-se frente ao transcendente que não pede para ser entendido, muito menos racionalizado, mas contemplado em silêncio. É uma viagem para dentro de nós, não para outros lugares geográficos. É o alimento da alma e das carências; não o consumismo desenfreado de churrasco e cerveja. É o cheiro da terra, o vento que balança nossos desejos, o pássaro que entoa o melhor cântico de natal, o chimarrão do fim de tarde, o encontro e o abraço.
Não vamos deixar de estar com quem a gente gosta nesse Natal e em todas as épocas. Os invernos e as primaveras são mais bonitos com gente da vida da gente, de carne e osso. Saiamos do virtual e abraçamos o real. Visitemo-nos. Achemos jeitos de acarinhar a alma e o coração. Sejamos doces até com os mais chatos da nossa família que vamos encontrar... A doçura gera doçura. Se falta perdoar, façamos esse esforço, não vai ser de uma hora para a outra, mas talvez o caminho seja iniciar no dedo do Menino. E, quem sabe, o mais importante, em tempos de crises e conflitos, de ditaduras travestidas de muitas formas, sejamos da resistência. Projetos e utopias que resistem nos olhos e ouvidos, no tato e no paladar, no cheiro da criança que mora em nós. Integralmente, é necessário resistir. É cristão resistir. É transcendental resistir. O Menino resistiu!
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Desejo que o Menino aperte o seu dedo. E aperte também o meu. E que esse carinho nos toque, profundamente. O aperto e os “apertos” da vida nos torne desejosos do que há de vir, de um advento melhor, um advento que, talvez, nossos olhos não verão, mas alguém verá e viverá. Toques, mãos, dedos e desejos que salvarão o mundo. Curvemo-nos frente ao Menino.
Texto de Pe. Maicon A. Malacarne
14/12/2016